Eurogame é um rótulo que nasceu com o Acquire lá nos anos 60, ou seja, lá quando tudo ainda era mato. A ideia de um board game onde a interação indireta, e não o conflito armado, seria o protagonista da história que se desenrolaria na mesa era inovadora e agradou vários públicos. Inclusive eu!
Entre a criação do termo e o meu nascimento, se passaram mais de 30 anos. Bota aí mais uns 20 até eu adentrar profundamente no hobby mesmo. Bem, eu acho que não é absurdo dizer que na 1ª vez que eu ouvi o termo eurogame, antes de me explicarem, uma das associações que fiz ao termo foi ao, tão recorrente, tema de colonização e exploração de terras.

Nascendo e vivendo nestas terras (ainda) colonizadas, depois de um tempo (e ainda hoje), essa temática passou a me incomodar. Não me entenda errado, eu adoro Puerto Rico, eu adoro Mombasa. Pelo jogo, não pelo tema. Sinceramente, eu consigo abstrair muito bem e me perder no gameplay. Em especial quando se pensa em eurogames como representações bem abstratas, fica até mais fácil fazer isso né?

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Puerto Rico é tão bom que tem até derivados

Pois então, quem me conhece ou acompanha o CorujaCast, sabe que eu não curto muito Terraforming Mars. A perspectiva do jogo é que representamos empresas que têm a missão de terraformar e, sim, colonizar o planeta vermelho. É muito importante salientar as cartas com diversos eventos que a gente joga e que o nosso objetivo é muitas vezes realizar etapas de terraformação antes dos outros: colocar um lago ali pra atrapalhar a outra pessoa, elevar a temperatura para ganhar tal bônus… Tacar um asteroide no planeta.

Eu acho Terraforming Mars um jogo “okay”, que é melhorado pelas expansões. É tudo sobre uma disputa capitalista em cima de uma nova oportunidade de lucro. Mas essa temática traz tudo de errado da temática de colonização pro nosso futuro. Isso me incomoda profundamente. 

Tacar um meteoro para atrapalhar o competidor a terraformar? Pode

Se esse for o modelo pelo qual iremos seguir em frente, claramente a raça humana falhou como espécie e como sociedade. É como se não tivéssemos aprendido nada com a nossa história. E de novo, eu consigo abstrair e jogar o joguinho, sem problemas, apesar de nesse caso ser sobre uma ideia de futuro e me incomodar mais do que sobre o passado sujo da nossa história.

Vamos para o Vital Lacerda agora. Os jogos do Vital Lacerda têm sempre um “push and pull” entre os jogadores, onde um vai fazer uma ação que vai permitir ao outro jogador fazer outra coisa e por ai vai. Eles funcionam num esquema de ação única e ações executivas, onde você acaba fazendo um pouquinho a cada turno e passando pro próximo jogador aproveitar as oportunidades que você criou e, por consequência, criar oportunidades para o próximo jogador.

Olha que obra de arte!

Não é que os jogos do Vital Lacerda não tenham competição ou “block”, muito pelo contrário, aliás. Mas sim uma competição que é mais do que a soma de suas partes. É algo sobre oportunidades e de estar disposto a cooperar para que possam prosperar. Isso é mostrado perfeitamente em CO2 onde, se a cooperação não acontece, todos perdem.

On Mars desnuda essa ideia de cooperação totalmente! Para que seja possível a convivência em Marte, é necessário que façamos viagens entre a Terra e o planeta vermelho. É necessário que resolvamos variados e diversos problemas para a ocupação marciana, desde o oxigênio, até a energia, até os alojamentos para as pessoas. Isso tudo precisa de cientistas especialistas em cada campo para que tudo funcione de maneira mais eficiente. É imprescindível que alguém evolua e faça pesquisas em cada uma das áreas necessárias de evolução para que, não apenas ele, mas todos os jogadores se utilizem da tecnologia para que possam contribuir com a convivência em Marte.

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Um futuro que mostra uma relação mais humana com o planeta vermelho

De novo, é a cooperação que vence o jogo. É o interesse mútuo que é o protagonista de On Mars. É você tentar otimizar as viagens entre a Terra e Marte. Não é o interesse privado e competitivo que vai fazer a futura sociedade marciana ir pra frente. Isso me lembra ainda 2 obras de ficção: The Expanse (série de livros e série da amazon) e também do filme “The Martian” com o Matt Damon – ouvinte assíduo do nosso podcast, diga-se de passagem – onde, em ambos os casos, não é o interesse privado e o desejo de riqueza privilegiada que move os nossos espíritos através do cosmos.

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